segunda-feira, novembro 28, 2011

Limites entre informação e entretenimento

Uma das questões mais sublinhadas pela literacia mediática consiste na distinção clara das fronteiras entre determinados conteúdos que os media, neste caso o jornalismo, promovem e difundem. Concorrendo justamente para a ideia de uma literacia da informação, tive recentemente uma discussão prolongada com um familiar sobre um ponto que pode perfeitamente encaixar-se neste tema.

Por cá, na última semana, decorreu uma [extensiva] cobertura mediática sobre a candidatura do fado a Património Imaterial da Humanidade. Televisões, rádios, imprensa e edições jornalísticas online trabalharam afincadamente na expectativa de uma decisão favorável a uma candidatura que teria uma decisão no fim-de-semana passado, em Bali, na Indonésia.

Contudo, reparei como os diferentes media estruturaram a nossa visão sobre um acontecimento, de facto, simbólico. Desta forma, a SIC optou por abordar a situação através de um critério que, no mínimo, considero duvidoso e que provavelmente induziria o espectador em erro. No final de cada emissão do 'Primeiro Jornal', a atenção era dedicada ao fado, com uma determinada reportagem sobre um cantor(a) ou algum lugar tradicional lisboeta. Posteriormente, o pivot deslocava-se para uma espécie de plateaux alternativo do estúdio, onde estava um(a) fadista e respectiva banda preparados para uma actuação em directo, após breves perguntas do jornalista.

Quando tive oportunidade de perceber esta opção editorial, decidi confrontá-la com outras perspectivas, na rádio e televisão. Num desses dias, percebi que, por exemplo, a RTP explicava com detalhe a origem e o fundamento de uma candidatura do Fado de Lisboa (distinta para não provocar confusões com o Fado de Coimbra). Por sua vez, a TSF lembrava o mentor da ideia subjacente à candidatura, Santana Lopes, por altura de 2004 enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

Na verdade, é mais espectacular, vistoso e deslumbrante repetir uma actuação de fado a cada final de emissão de um serviço informativo visto por milhares de espectadores. Uma abordagem que me levou a pensar numa eventual e perigosa confusão entre o tratamento jornalístico sobre um tema e uma visão típica de entertainer, provavelmente adequada a outros segmentos da estação. A conversa com o meu familiar suscitou diversas questões, para as quais não tenho resposta completa: onde está a informação numa actuação de fado num serviço noticioso? se a música representa um factor importante no enquadramento jornalístico, até que ponto é legítimo - ou não - o uso excessivo do mesmo formato? E sobre essa repetição, provoca cansaço no espectador ou encontra-se perfeitamente justificada pelo framming que sugere?

Uma forma elegante de suscitar a discussão foi - para mim - , o trabalho que a TSF fez hoje no Fórum TSF. Convidou gente do fado, ouvintes, participantes, numa 'mesa redonda' sobre os inícios e caminhos futuros do fado, após a distinção obtida. Pontualmente entraram alguns trechos sonoros de fado, mas apenas como contextualização auditiva, apelativa para o ouvinte, diria.

Numa altura em que se esgrimem tantos argumentos pró e contra o serviço público, fiquei genuinamente satisfeito pela abordagem clarividente, bem situada histórica e socialmente, que a RTP realizou ao longo da semana sobre o acontecimento. Para mim, foi apenas (mais) um exemplo de como um serviço público orientado e personalizado faz falta numa sociedade mediatizada.

Admitindo que este meu entendimento possa encerrar diversas opiniões contrárias, julgo que estamos perante um tema bastante interessante para reflexão. Afinal convivemos diariamente com questões idênticas a estas e certamente algum trabalho estará ainda por fazer. Pensar em literacia mediática significa igualmente pensar numa abordagem múltipla da realidade que os media nos sujeitam. Nem todos têm o mesmo foco, nem a mesma luz.

P.S. - O conceito de 'infotainment', que designa grosso modo, a diluição clara das fronteiras entre a informação jornalística e o entretenimento, não é propriamente novo, veja-se por exemplo nestes textos: 'Who's Afraid of Infotainment?' ou 'News as Entertainment'.

quarta-feira, novembro 23, 2011

MEDIALAB apresentado na Young Reader Round Table

Na sequência do prémio The 2011 World Young Reader Prizes este ano obtido pelo projecto português MEDIALAB (JN/DN), a iniciativa foi recentemente apresentada no quadro do 63rd World Newspaper Congress and 18th World Editors Forum, que decorreu em Viena. A apresentação seguinte foi a base da comunicação de Alexandre Nilo Fonseca, do MEDIALAB:
World Young Reader Round Table 2011, Alexandre Nilo Fonseca
Outras apresentações na mesma mesa-redonda podem ser encontradas no www.slideshare.net, pesquisando por "World Young Reader Round table".

segunda-feira, novembro 21, 2011

Novo livro - Media Education goes to School


Media Education goes to School (Minding the Media: Critical Issues for Learning and Teaching) é um livro da autoria de Allison Butler que procura resumir a luta que envolve a integração da literacia mediática no currículo educativo das escolas rurais e suburbanas norte-americanas. Baseada numa investigação etnográfica, envolvendo grupos focais de 21 participantes, ao longo de um processo de observação-participante, a obra resume as percepções dos estudantes sobre a literacia mediática nas suas escolas, além de perceber que tipo de conhecimentos partilham acerca das reformas escolares. Um dos pontos mais importantes do livros acaba por ser a constatação de que a literacia dos media não é [ainda] uma prioridade nas políticas educativas, além de prever que só na presença de profundas reformas estruturais no sector da educação se pode esperar a integração plena de uma disciplina que ajude os alunos a lidar com os media.

O que temos à frente do nariz

O caderno do jornal Público P2 publica hoje uma entrevista de Pedro Lomba ao colunista Vasco Pulido Valente. O entrevistador abre com uma frase pedida de empréstimo a Orwell que caracterizaria o entrevistado, mas que se aplica que nem uma luva à Educação para os Media e, por isso, a transcrevemos aqui:

o que temos à frente do nariz 
requer uma luta constante”.

quinta-feira, novembro 17, 2011

Os 'reality shows' são assim tão maus?

A revista Sábado fez um vídeo, na sua secção 'vox pop', colocando questões de cultura geral a jovens universitários. O resultado apresentado não é animador, terminando com o seguinte apanhado de falas dos entrevistados:
"Artes não é comigo", "política não é comigo", "cinema não é comigo", "informática não é comigo", "tudo o que tem a ver com religião não é comigo", "cultura geral não é comigo"... 

A ideia do vídeo surge por causa da ignorância cultural que concorrentes do programa A Casa dos Segredos, de novo em antena na TVI, têm manifestado.

São muitas as críticas feitas ao 'reality show', que explora e expõe o lado mais mesquinho e intriguista das relações humanas. Mas há algum mérito neste programa pois ele ilustra, em alguma medida, o perfil de pessoas que existem e fazem parte da sociedade, tendo inspirado a realização do vídeo já referido. Não retratando, nem o programa, nem o vídeo, toda uma geração de jovens e universitários - é importante que isso seja claro! - não deixa de apresentar um quadro desencantado de pessoas cuja realidade envolvente parece não lhes despertar o mínimo interesse.

Sem cair numa análise simplista, associando as lacunas de cultura geral apenas ao ensino, algumas questões podem ser levantadas a partir do programa e de todo o interesse que ele desperta nas audiências (muito favoráveis) e no acompanhamento mediático que lhe é dispensado. Limito-me apenas a pegar numa das muitas pontas que o assunto deixa soltas.

Numa altura em que se ouve e se fala tanto da abundância da informação, como explicar (e que estratégias para combater) uma tamanha manifestação da sua ausência?

segunda-feira, novembro 14, 2011

Por uma "Agenda da Criança" não amputada e redutora


O Governo vai lançar, no primeiro trimestre de 2012, a “Agenda da Criança”, uma iniciativa que pretende "envolver as instituições e a sociedade civil". O anúncio foi hoje feito pelo secretário de Estado da Segurança Social, Marco António Costa.
A intenção é criar um espaço transversal aos serviços e instituições de cuidados das crianças, que as coloque "no centro das preocupações". Tratará de temas como o abandono escolar, a violência contra as crianças, maus tratos e abandono e as situações de crianças e jovens em risco.
A iniciativa é certamente merecedora de aplauso, ainda que mereça algumas considerações que entendemos relevantes. A menos que o projecto esteja já fechado, seria bom ter em conta o seguinte:
  1. Se se pretende defender e promover os direitos das crianças, matéria a que o Estado português está obrigado, enquanto subscritor da Convenção respectiva, no âmbito da ONU, deve ter em conta que esses direitos não são apenas de protecção (face a ameaças e riscos) ou de provisão (de bens e recursos que lhes criem condições de serem pessoas felizes), mas também de participação (ou seja, que lhes abram perspectivas e as capacitem enquanto cidadãos, membros activos da sociedade - vd. art. 12º a 17º). Relativamente a esta última 'família' de direitos, a Convenção é clara, ao reconhecer às crianças não apenas o papel de objecto das atenções dos adultos, mas também o de sujeitos; e, por conseguinte, devendo ser ouvidas nas matérias que lhes dizem respeito e devendo ter a liberdade de expressão dos seus pontos de vista, de acordo com as suas capacidades. 
  2. Sendo a iniciativa do âmbito da Segurança Social, será vantajoso que quem vier a implementar a referida "Agenda da Criança" (curiosamente, já existe um site com essa designação), procure fazer pontes com instituições da sociedade civil envolvidas não apenas nas importantes tarefas da protecção e da provisão, mas também com instituições relacionadas (e preocupadas) com a participação e a expressão dos mais pequenos. Neste contexto, é fundamental, do nosso ponto de vista, o desenvolvimento de parcerias com os meios de comunicação social e com iniciativas e espaços no âmbito da Internet e das redes sociais, com vista a promover essa perspectiva integrada e aberta dos direitos da infância. 
  3. Uma "Agenda da Criança", sim, certamente. Mas que faça das crianças sujeitos cada vez mais responsaveis e autónomos do seu devir e não apenas objecto daquilo que os adultos entendem que elas precisam. Uma coisa não é incompatível com a outra. Mas nós tendemos, pela força da inércia cultural, a olhar para um lado e a esquecer o outro.

domingo, novembro 13, 2011

Telespectadores sedados com baixa reactividade emocional

(Coluna publicada no Diário do Minho de 13.11.2011)


Por Eduardo Jorge Madureira

Desenvolvida pelo médico português António Egas Moniz, a lobotomia, que, segundo refere a Wikipédia, se deve, mais apropriadamente, chamar leucotomia, é uma intervenção cirúrgica no cérebro, tendo sido a primeira técnica de Psicocirurgia. O procedimento, esclarece ainda a Wikipédia, conduz os pacientes a um estado algo sedado de baixa reactividade emocional.

A Wikipédia garante que a lobotomia, tal como António Egas Moniz a praticou, já não se usa devido aos seus efeitos secundários severos. Quem, todavia, observa determinados programas televisivos não pode estar certo de que tenham, de facto, terminado os procedimentos que conduzem a “um estado algo sedado de baixa reactividade emocional dos pacientes” telespectadores.

Em vez do Lobotomobile, usado, outrora, nos Estados Unidos da América pelo cirurgião Walter Freeman, que percorria todo o país, aplicando uma variante da lobotomia que, garante a Wikipédia, consistia em espetar um picador de gelo directamente no crânio do doente num ponto imediatamente acima do canal lacrimal com a ajuda de um martelo, que, a seguir, se rodava para destruir as vias aí localizadas, são certos programas televisivos que se encarregam de praticar a intervenção lobotómica. Em vez de um Walter Freeman, temos uma Teresa Guilherme a intervir nos cérebros, não com picadores de gelo, mas com as mandíbulas.

Ao que parece, o negócio do programa que a senhora conduz, “Secret Story” ou “Casa dos Segredos”, faz-se à custa de segredos. Os concorrentes têm, cada um, o seu para guardar e os dos outros para desvendar. Ganha o reality show quem for mais bem sucedido nesse intento. Cada concorrente dispõe de dez mil euros. Se achar que sabe qual é o segredo de outro concorrente, dirige-se a um sítio designado por “confessionário” e revela-o. Se o denunciador acertar, fica com todo o dinheiro do denunciado; se perder, o denunciado ganha o dinheiro do denunciador. A acreditar no que se lê na imprensa e se o site do programa não mente, há um concorrente que se apresentou dizendo ter um segredo invulgar: “Matei um homem”.

A estupidez está de tal modo entranhada no planeta televisivo que não há voz que se ouça a reclamar contra o gesto indigno e imbecil de quem resolveu candidatar-se a ganhar dinheiro graças à circunstância de ter causado a morte de uma pessoa, pouco importando para o caso se voluntaria ou involuntariamente.

Um programa que usa como isco o segredo de uma criatura que diz: “Matei um homem” não seria emitido por um canal televisivo decente. E se fosse, seria a decência dos telespectadores a dizer que um programa assim não deveria ser visto, o que, evidentemente, ditaria o seu fim rápido. Mas a decência, sempre abundante nas conversas, é escassa nos gestos, razão por que o programa tem sido dos mais vistos da televisão portuguesa (o mais visto na maior parte dos dias da semana que finda).

Embora em outros países – em Espanha, por exemplo – haja programas televisivos muito piores do que os que se podem ver nas televisões generalistas portugueses, há momentos em que a apatia generalizada dos telespectadores se interrompe. Na terça-feira, o diário espanhol El País noticiava que o El Corte Inglés tinha retirado a publicidade nos intervalos de um programa televisivo, intitulado La Noria, pelo facto de, no dia 29 de Outubro, este ter apresentado uma entrevista paga à mãe de um rapaz envolvido no assassinato de uma adolescente de 17 anos, ocorrido em 2009, em Sevilha. Esta presença televisiva suscitou a irritação de milhares de pessoas, que assinaram uma petição para que as marcas “retirem a sua publicidade de programas que pagam a familiares de criminosos”. O pedido foi escutado por diversas empresas mais ou menos conhecidas, como, por exemplo, a Bayer, a Bimbo, a Campofrío, a Nestlé, a Panrico, a President, a Puleva e, na semana que passou, o El Corte Inglês, que deixaram de querer que a sua publicidade aparecesse nos intervalos do programa do canal Telecinco.

A decisão das marcas, que não querem, nem podem desagradar aos potenciais consumidores, além de ter um efeito publicitário simpático, pois, como notava alguém citado pelo El País, fazem “uma campanha de imagem que lhes sai de borla”, provocou um enorme prejuízo ao canal televisivo espanhol. O que é bom. E quanto mais elevado for o dano, mais rapidamente o canal aprenderá que a falta de decência pode servir para aumentar as audiências, mas pode também causar um significativo rombo financeiro. Muito se ganharia se este tipo de aprendizagem também fosse proporcionado aos canais televisivos quando eles apostam na lobotomização dos telespectadores.