terça-feira, setembro 20, 2011

Serviço público de TV: os anéis e os dedos


 Faz falta um serviço público de televisão, mesmo, e talvez sobretudo, em tempos de crise. Não necessariamente nos moldes em que existe – entendo que, sobre isso, há opções a tomar. Quando o dinheiro é escasso, costuma dizer-se: que vão os anéis, mas fiquem os dedos. Mas, neste caso, o que são os anéis e o que são os dedos? Se “nem só de pão vive o Homem” (Mt 4,4), pode-se morrer também da falta daquilo que está para além do pão: temos uma necessidade vital de cultura, de criatividade, de pensamento crítico, de alargamento de horizontes, de espiritualidade. Sem isso não se vive e a sociedade definha.
Considero inconsistente a ideia de que os canais privados, podem perfeitamente fazer – e de forma mais barata – aquilo que um operador público faz. A prática, aqui como lá fora, mostra que não é assim e não são casos isolados ou pontuais – de um documentário, de um filme, de uma reportagem – que justificam o argumento.
Sou dos que acham que a informação deve ter um lugar proeminente em qualquer projecto de serviço público, proporcionando visibilidade às diversidades geográfica e temática nacionais e globais, incluindo dos grupos e minorias, e contribuindo, através das notícias e do debate, para uma compreensão crítica do mundo e uma clarificação do lugar e papel e de cada um nele. Mas não sigo, de todo, os que desqualificam culturalmente o papel do entretenimento e do espectáculo, que, além de intrínseco ao meio televisivo, tem um lugar incontornável na sociedade e na cultura. O problema não é se sim ou não, mas o modo como se faz. E aí é exigível que o serviço público seja inovador, experimental e criativo. Seja, em suma, diferente.
Há dois grupos que merecem cuidado especial, num projecto televisivo de serviço público: os mais pequenos e os mais velhos. Dos canais privados podemos esperar séries cheias de aventura e de suspense para as crianças e programas que entretenham e confortem os seniores. Mas não lhes será exigível que assumam um carácter formativo e que ampliem horizontes culturais, cívicos e políticos.
Aquilo que, finalmente, distingue um serviço público de TV é a capacidade de ajudar a ler criticamente os próprios media, através de conteúdos orientados para a literacia mediática e informativa e dos programas dos provedores.  Isso é exigido hoje no plano europeu, mas carece ainda de muito maior investimento.

(Texto publicado na edição de 19.9.2011 do diário digital Página 1)

sábado, setembro 17, 2011

Morangos sem açúcar



A propósito da nona temporada do programa televisivo ‘Morangos com Açúcar’, o crítico televisivo Nuno Azinheira defendia, há dias, uma posição que suscita perplexidade. No seu modo de ver, atiram completamente fora do alvo aqueles que criticam o programa por ser “um mau exemplo para a juventude”; por colocar “os nossos jovens” perante “tudo o que de mau a sociedade tem” e lhes franquear o “caminho da droga, do sexo fácil e da banalização do amor”; por os tornar “mais violentos na escola, enfim, um sem-número de pecados”, como ele escreve. Morangos com Açúcar, em vez de “um vício”, seria, para Azinheira, “uma oportunidade” para os pais explicarem aos jovens “o que é isso de crescer, de os preparar para as inquietudes e angústias que o seu desenvolvimento corporal e psicológico sempre desperta, e de os mentalizar para os perigos da vida fora do casulo dos primeiros anos de existência”. “Porque, entendamo-nos, não é a escola, muito menos a televisão, que tem de dar educação às nossas crianças”, esclarece ainda o jornalista. Para além do bom senso, é hoje farta a investigação a frisar esta ideia: tão ou mais importante do que aquilo que a TV faz aos mais novos e à sociedade é o que os mais novos e a sociedade fazem com a TV. Aparentemente haveria, assim, uma sintonia com Nuno Azinheira. E no entanto o desacordo não sendo total, é, eu diria, profundo. Certamente que a responsabilidade e papel dos pais é crucial. Dificilmente se pode negar isso e nunca se enfatizará suficientemente tal contributo decisivo. Mas remeter apenas para essa sede a tarefa educativa é escamotear completamente as condições reais em que ocorre, hoje, o quotidiano e a socialização das jovens gerações. Deixo de lado, por extravagante, a ideia de que à escola não cabe educar. No que respeita à televisão (e à Internet, aos videojogos…), se ela propõe situações, relações, experiências, valores e visões do mundo envolventes, isso não será relevante? Não a tornará um factor interveniente, com o seu grau de especificidade, no processo formativo? Dizer que tudo está do lado dos pais é irresponsabilizar a televisão e canonizar implicitamente tudo o que ela possa fazer. Será esse o papel de um crítico de televisão?

sexta-feira, agosto 26, 2011

Com jornais é como com médicos

A crónica de Ferreira Fernandes, no DN de hoje, intitula-se "Era tão bom aprender a lição" e constitui um excelente motivo e conteúdo de literacia relativamente aos media. Começa assim:

"Houve em tempos uma campanha, "Ler jornais é saber mais", que dizia o essencial: jornais. No plural. Com jornais é como com médicos. Ouvir uma segunda e terceira opinião cura-nos da estupidez, com jornais, tal como com médicos pode salvar-nos a vida. Na semana passada, a revista francesa L'Express revelava que o relatório médico de Nafissatou Diallo, a mulher que acusava Strauss-Kahn, dizia: "Causa dos ferimentos: violação". Ora, esta semana, o procurador de Nova Iorque que investigava o caso nem o levou a tribunal, por total falta de provas. Então não havia pelo menos a "prova" do relatório médico para se discutir em tribunal? (...)" [ler o restante do texto aqui].
A crónica continua, explicando que aquilo que parecia um facto inquestionável era, afinal uma interpretação, ou, mais rigorosamente uma versão provavelmente interessada. "A certeza de L'Express vinha-lhe de não saber do que estava a falar. Acontece tanto", observava ainda Ferreira Fernandes.
De onde a tal "lição" a tirar - é preciso consultar e confrontar mais de uma fonte. Esta é uma dimensão fundamental. Mas não suficiente. Um espírito informado e crítico deveria ser capaz de ver logo que a informação de l'Express estava inquinada, porque não resultava de qualquer investigação policial ou judicial, mas da versão dada por uma das partes. E isso deveria ser dito, para calibrar a informação com o grau de confiança que a ela se deveria atribuir.
A esmagadora maioria dos leitores pode não dispor de condições para confrontar várias fontes. Mas deveria possuir a capacidade e o conhecimento para aquilatar da fiabilidade e grau de confiança de uma informação.

domingo, agosto 21, 2011

A UNESCO e a literacia da informação e dos media


Sheila Webber,animadora do Information Literacy Weblog, fez, nos últimos dias, um apanhado dos debates que, por iniciativa da UNESCO ou em torno dos documentos desta organização, têm tido lugar nos últimos meses, no sentido de se conseguir um conjunto de indicadores sobre MIL - Media em Information Literacy.
Os três posts dedicados ao assunto têm o interesse não apenas de sumariar algumas das questões sensíveis dos debates em curso, como também indicar alguns dos documentos que têm servido para apoiar esses mesmos debates.
São estes os posts de Sheila Webber, uma especialista de Literacia Informativa, mas com uma perspectiva aberta e ecuménica, com quem temos certamente muito a aprender:
Complementarmente, sugiro igualmente a leitura destes posts recentes:

quarta-feira, agosto 17, 2011

Programa "Jornal e Educação" faz encontro na Bahía

Perto de 30 animadores de projectos que utlizam o jornal na educação encontra-se a partir de hoje, e até sexta-feira, na cidade brasileira de Salvador da Bahía, para intercambiarem experiências.
Arranca hoje, prologando-se até sexta-feira.
Este Encontro Nacional de Coordenadores do Programa Jornal e Educação (PJE) da Associação Nacional de Jornais tem a parceria do jornal A Tarde, anfitrião do evento.
Além da exposição de alguns coordenadores, será realizada uma tarde temática sobre "Políticas Públicas" com representantes da área de Livro e Leitura do Minc (Ministério da Cultura), da SEFIC (Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura do Minc), e do Mais Educação do MEC (Ministério da Educação). As palestras serão seguidas de debate. A Educare, empresa que trabalha com projetos da Lei Rouanet, também estará presente.Para encerrar o evento, no dia 19, haverá uma palestra sobre "Cultura Digital" com Nelson Pretto, da UFBA (Universidade Federal da Bahia), e Priscila Gonzales, da Fundação Telefônica.
Para a jornalista Cristiane Parente, coordenadora do PJE, o encontro é um momento de aprendizagem colaborativa, em que são trocados materiais, dicas, experiências e afetos, e os participantes podem reafirmar o compromisso com a formação de leitores-cidadãos. "É gratificante saber que nosso trabalho tem contribuído na formação não só de mais leitores, mas de mais leitores e autores críticos, autônomos; é bom saber que muitos de nossos coordenadores espalhados pelo Brasil estão fazendo a diferença na vida de estudantes e escolas", afirmou.

(Informação colhida no site do PJE)

terça-feira, agosto 16, 2011

Media Lab ganha o "World Young Reader Prize"


O projecto Media Lab, iniciativa dos diários portugueses Jornal de Notícias e Diário de Notícias, que visa envolver jovens e crianças no mundo das notícias, venceu o prémio "World Young Reader Prize 2011" na categoria "Making the News" da "World Association of Newspapers".
O prémio, dado pela Associação Internacional de Jornais, reconhece o melhor projecto ou actividade na área do desenvolvimento da leitura de jornais entre os mais jovens.
Segundo o júri, o Media Lab "é um excelente modelo a seguir por outros jornais e que desenvolve a consciência da importância das notícias. A simplicidade e a escala deste projecto para desenvolver a literacia para os média são assinaláveis e o objectivo de chegar ao número de 50 mil estudantes a participar no projecto está muito perto de ser conseguido." 
(...)
Fonte: JN. Para continuar a ler: AQUI.