Através do
boletim de literacia dos media do
Ofcom fico a conhecer a iniciativa
Race Online 2012, lançada este mês no Reino Unido. Apresenta-se como um "manifesto para uma nação em rede" e tem como objectivo a inclusão
online dos dez milhões de pessoas no país que nunca acederam à Internet.
Até ao fim desta legislatura (a decorrer até 2015) o propósito é passar a cobrir esse quinto da população que ainda está fora do digital. Segundo o
site do projecto há três motivos fundamentais para uma pessoa não estar
online: falta de motivação, falta de acesso e falta de capacidades. "Então precisamos de trabalhar em conjunto para inspirar mais pessoas a experimentarem a Internet; encorajar e recompensar o uso
online e ajudar aqueles que precisam".
O derradeiro objectivo é que toda a população em idade activa esteja
online e que ninguém se reforme sem as capacidades adequadas para aceder à Internet.
Vejamos, agora, como começa o texto do prefácio: "Os dez milhões de pessoas no Reino Unido que nunca estiveram
online já estão a perder grandes poupanças em termos de consumo, acesso a informação e a educação". Esperemos que isto não seja uma ordem de prioridades, porque está construído como um anúncio publicitário a um produto aleatório.
Mais à frente encontramos isto: "Há um argumento social e moral a ser feito para nos assegurarmos que mais gente está
online, mas um claro argumento económico também". A introdução do conceito de moral nesta dinâmica é, a meu ver, preocupante e repete-se ao longo dos textos. Dá-se numa mescla com o fundamental do económico e o relevo que a "literacia digital" tem enquanto "poderosa arma no combate à pobreza". Ou seja, é dado a parecer que esta iniciativa é a que vai erradicar os males socioeconómicos do país, com uma forte componente moral no desenvolvimento da mesma.
De que forma é que é imoral não ter Internet? Poder-se-á conceber que há uma escolha consciente de não a utilizar ou o futuro passa por uma obrigatoriedade nesse sentido? Caminhamos para o estabelecimento do acesso à Internet como um direito humano (lembremos que esta semana a ONU declarou, de forma não-vinculativa, o
acesso a água potável um direito humano)?