terça-feira, novembro 22, 2005

Por um debate da televisão de qualidade no espaço público

Um grupo de investigadores do CICCOM - Centro de Investigação em Ciências da Comunicação da Universidade do Algarve, coordenado pelo Prof. Vítor Reia Batista, traz hoje, no Público, um texto de opinião sob o título em epígrafe, que, pela estreita articulação com o âmbito deste blogue, transcrevemos na íntegra, com a devida vénia:

"Na sequência de um artigo aqui já publicado com a opinião de colegas da Universidade do Minho, lançando o debate sobre "a televisão no espaço público", propomos introduzir nesse debate um novo elemento - a Qualidade, ou seja, "a televisão de qualidade no espaço público". Em primeiro lugar, como matéria de reflexão em torno de possíveis conceitos de qualidade e da sua possível "utilidade". Em segundo lugar, como necessidade de desenvolvimento de um melhor estado de literacia dos media por parte dos consumidores e dos agentes mediáticos. E, por fim, como uma breve nota de reflexão e aviso.

1. A discussão sobre a qualidade da programação oferecida pelas televisões generalistas de sinal aberto, como é o caso da SIC e da TVI, mostra-se de grande relevância num momento em que se prepara a renovação das suas licenças. De acordo com dados da Media Planning Group, tanto a TVI quanto a SIC tiveram uma audiência média que rondou os 33 por cento no ano de 2004, o que significa que têm uma participação de 66 por cento do share da audiência televisiva média. No mesmo ano, os programas com maior tempo de antena foram os programas de ficção, com 34 por cento na SIC e 35 por cento na TVI. Estes dados permitem inferir que a discussão sobre a qualidade da programação poderia ser iniciada a partir de considerações a respeito dos géneros em que mais se investe devido ao seu alto consumo, ou seja, os géneros de ficção, o que, só por si, já seria uma questão bastante problemática. No entanto, ao invés de realçar os aspectos negativos da questão assim colocada, seria talvez mais produtivo propor parâmetros de qualidade, assentes numa série de princípios que poderiam nortear as futuras apostas na produção de programas de ficção pelas emissoras. Por exemplo, considerando que a televisão proporciona uma experiência colectiva e cria laços sociais entre diversas comunidades e sectores populacionais de características sociais, étnicas e etárias diversas, é necessário que a televisão crie narrativas que possam agregar valores na vida quotidiana dos telespectadores. As narrativas podem ser "úteis" em diferentes sentidos, como por exemplo, para entreter e desviar a atenção da realidade (as grelhas actuais são um bom exemplo disso) mas também para alertar para questões políticas, sociais e éticas de forma relativamente eficaz, como tem acontecido em alguns exemplos de projecção mediática internacional. Assim, o momento parece apropriado para pensarmos em boas formas de alargar o campo de debate à própria natureza da televisão para criar, contar e compartilhar narrativas que sejam "úteis" e que contribuam não somente para a democratização da sociedade, mas também para uma mudança de foco da completa banalização temática que assolou a comunicação social nos últimos tempos, especialmente no que toca aos géneros de ficcionais.

2. Neste sentido, parece-nos que, tão importante como discutir a televisão que se vê, será discutir o "ensinar a ver televisão". Trata-se, por um lado, de sensibilizar o público televisivo para as questões da qualidade mediática do mesmo modo que se procura sensibilizar os consumidores para uma atitude mais crítica e exigente em relação aos produtos que consomem em geral e, por outro lado, de empreender esforços no desenvolvimento de acções de pedagogia dos media, articuladas em estratégias de âmbito escolar e extra-escolar, nomeadamente para consumidores adultos, que contribuam para guiar o homo videns português a caminhos mais desenvolvidos de uma real literacia dos media. É com este objectivo que vários centros de investigação da Europa (entre eles o CICCOM) estão a desenvolver projectos em torno do compromisso comum de formar cidadãos suficientemente competentes para consumir e avaliar os media de uma forma crítica, consciente e autónoma (caso dos projectos: Carta Europeia para a Literacia dos Media e Competências Audiovisuais para os Cidadãos, entre outros). Logo, no debate público que venha a desenvolver-se sobre novas licenças de televisão, terá toda a razão de ser equacionar com igual destaque ambas as vertentes, consumista e crítica, da mesma questão, isto é, que género de televisão queremos nós, para termos um panorama televisivo de qualidade no nosso espaço público.

3. O espaço público terá sempre a qualidade resultante da intervenção de todos os agentes que ponteiam na esfera pública. Seremos mais cultos se granjearmos maiores índices de literacia a todos os níveis, seja no campo literário propriamente dito, ou no campo televisivo, onde somos grandes consumidores, mas completamente acríticos e até autocomiseradores. Assim, recomenda-se um simples exercício à futura entidade reguladora e aos agentes licenciados, públicos e privados, que demonstrem vontades auto-reguladoras, como já vem acontecendo num ou noutro caso de forma algo avulsa: Sentem-se comodamente com caderno e lápis (não se aconselha azul) e vejam com olhos de ver, ouçam com ouvidos de ouvir e vão tomando notas ao sabor dos impulsos mais imediatos durante umas boas horas de visionamento dos mosaicos de programação existentes (reality shows, telenovelas, videodiscos e até mesmo notícias) e se, ao relerem as notas tomadas, encontrarem um número significativo de recomendações do tipo com menção de linguagens e imagens chocantes, ou sexualmente explícitas, com números a corresponder a idades, ou desenhinhos para alertar os pais, os avós, etc... , se sentirem uma sensação de espírito aliviado, ou até mesmo de dever cumprido, então, melhor será recomeçarmos tudo do princípio porque por esse caminho não vamos lá. Se não acreditam, leiam algumas letras de hip hop, que a maior parte de nós (reguladores, produtores, académicos) desconhece (NWA, Public Enemy, 2Pac, 50 C, Boss AC,...) mas que os jovens de Paris e da Amadora conhecem bem e até já foram identificadas como um novo género: Edutainment. Fica o aviso".

domingo, novembro 20, 2005

Os media e os direitos das crianças

Hoje evoca-se o dia dos direitos das crianças. Completam-se 16 anos sobre a aprovação, por unanimidade, da Convenção dos Direitos das Crianças, pela Assembleia Geral das Nações Unidas.
Sobre a relação entre esta matéria e o trabalho dos media, fica aqui a sugestão de leitura de uma publicação este ano editada pela UNICEF, intitulada "The Media and Children's Rights".
Da apresentação destaca-se:

"This handbook has been produced to help media professionals working on stories about children to appreciate the rights of children and encourage their participation in the mass media. It contains ideas and challenges for journalists, and for those seeking to obtain media coverage about children?s needs, problems, achievements and aspirations.
Its purpose is to generate responsible coverage of children, and the impact of adult behaviour and decisions on their lives. It has formed the basis of training programmes for journalists all over the
world, supported by UNICEF and the International Federation of Journalists.
Originally commissioned by UNICEF in 1999 to celebrate the tenth anniversary of the United Nations Convention on the Rights of the Child, this handbook is based on the practical experience of working journalists, and was devised by the UK-based media ethics charity MediaWise (formerly PressWise)."

sexta-feira, novembro 18, 2005

Colaboração Internacional na Internet - Guia do professor

Teacher's Guide to International Collaboration on the Internet
The Teacher's Guide
to International Collaboration was developed to help teachers use the Internet to "reach out" globally. These materials were prepared as part of the Department of Education's International Education Initiative.

I Encontro Internacional sobre Educação Audiovisual

Realiza-se nos próximos dias 5, 6 e 7 de Dezembro, em Santiago de Compostela, o I Encontro Internacional de Educação Audiovisual organizado pelo Consorcio Audiovisual da Galiza.
O Encontro destina-se a professores, alunos de cursos de educação e de comunicação, animadores socioculturais e profissionais dos media, entre outros, tendo como objectivos principais motivar os professores e as instituições para integrar o audiovisual no currículo escolar e encontrar formas de sensibilizar a comunidade em geral para esta necessidade educativa.
As inscrições encontram-se abertas até ao dia 25 do corrente mês e são gratuitas.
Para mais informações consultar: http://www.consorcioaudiovisualdegalicia.org/web/asp/index.asp?id_idioma=1&id_menu=8&int1=241&pagina=0

quinta-feira, novembro 17, 2005

Novo canal por cabo para os mais pequenos











A TV Cabo iniciou, na passada terça-feira, a emissão do Baby TV, um canal destinado a crianças até aos três anos de idade.
Disponível 24 horas por dia, o canal exibe programas com duração entre dois e dez minutos pensados e concebidos especificamente para os mais pequeninos. São disso exemplo o Baby Genius, que proporciona a descoberta de elementos da natureza (estações do ano, cores, e formas) através de efeitos visuais e de música; o First Baby Songs, que exibe uma compilação de canções populares cantadas em várias línguas por bébés; e ainda, entre muitos outros, o Paint me a World, uma ilustração da relação entre objectos do universo dos bebés e do mundo dos adultos.
Pelo visionamento de alguns programas e pela análise da grelha de programação, este novo canal pode ser uma mais valia para os telespectadores mais pequenos, um público que começa a ver e a aprender a ver televisão.
De referir que a RTP, através do canal :2, tem também revelado alguma preocupção com as crianças até aos três anos, dedicando-lhes há já algum tempo um espaço na grelha de programação para a infância.
O Baby TV, oferecido no pacote Funtastic Life da TV Cabo, está disponível apenas em inglês, esperando-se que surja, em breve, a dobragem para a língua portuguesa.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Geração W - Educação e Media



Realiza-se amanhã, durante todo o dia, no Fórum da Maia, o seminário "Geração W ? Educação e Media", uma iniciativa que visa reflectir sobre o universo mediático e suas repercussões junto dos mais jovens, procurando contribuir para o desenvolvimento do espírito crítico face aos media.
"A comunicação em comunicações ? Geração W à volta da mesa" é o tema do painel da manhã, com Manuel Pinto, Professor da Universidade do Minho; Eduardo Cintra Torres, Crítico de TV e Media; Paulo Arbiol, Locutor de rádio; Isabel Stilwell, Jornalista de imprensa escrita e Maria Emília Brederode Santos, CNE / Ministério da Educação. O segundo painel, à tarde, incidirá sobre "Tecnologia, aprendizagens e afectos ? Geração W em conversa" e contará com Luís Valente, Projecto SeguraNet / Ministério da Educação; Rui Pacheco, Director do Centro Multimédia da Porto Editora; Rui Abrunhosa, Psicólogo e Professor da Universidade do Minho; Vânia Fernandes, Psicóloga e Coordenadora e Técnica Superior de Educação Sexual e ainda Vasco Trigo, jornalista e apresentador da R.T.P.
"Se o olhar é construído também pode ser ensinado"

"O livro parte um pouco da ideia de que o olhar é uma coisa construída e fabricada das mais diversas maneiras, desde os óculos e das lentes à televisão, ao cinema, à fotografia..." É uma primeira definição de José Carlos Abrantes para o livro A Construção do Olhar.
(...)
Na introdução do livro, José Carlos Abrantes traça alguns aspectos da evolução do olhar e sublinha que "as imagens fabricam ilusões".Ao DN explicou que "as pessoas tomam a imagem pela realidade" e "é importante desconstruir as imagens para as pessoas passarem a ter um distanciamento crítico". Até porque "se o olhar é construído, ele também pode ser ensinado". Abrantes sublinha ainda que tem havido uma evolução no olhar. Desconstruir as imagens permite pois tornar os indivíduos "mais aptos para analisar o mundo".

Diário de Notícias, 16.11.2005